Ninguém merece morrer sozinho

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Ninguém merece morrer sozinho - Raciocínio clínico

Hoje levei meus alunos de Semiologia para conversar com um idoso ictérico e emagrecido que estava investigando uma possível neoplasia. O paciente estava cabisbaixo e triste. Mesmo afirmando que não tinha dor naquele momento, sua expressão revelava um profundo sofrimento. Algo lhe doía, e não era a doença. Tentando entender a razão de tanto pesar, perguntei-lhe se a família estava vindo lhe visitar, pois estava há 3 semanas no hospital. Foi quando ele pôs-se a chorar.

– Minha filha nunca veio aqui! Nem sequer para saber se eu ainda estava vivo.

Alguns alunos puseram-se a chorar junto…

Morrer já é uma dor imensa. Morrer sozinho, então, é infinitamente pior.

A arte perdida de curar - Raciocínio clínicoLembrei-me de uma história que li no excelente livro “A arte perdida de curar”, do cardiologista americano Bernard Lown, um dos inventores do desfibrilador. O Dr. Lown conta que o seu mentor e modelo profissional, Dr. Samuel Levine, desenvolveu câncer de estômago e pediu a ele que o atendesse. Lown ia visitá-lo diariamente, e sempre tentava encerrar seus encontros com uma mensagem positiva, que Levine recebia de bom grado – mesmo que estivesse definhando a olhos vistos.

Uma noite, ao final da conversa diária com o Dr. Levine, a essa altura reduzido a um feixe de ossos recoberto por uma pele amarelada como um pergaminho, o Dr. Lown resolveu não fazer o exame físico habitual, por julgar que isso em nada alteraria o quadro do paciente. Ao preparar-se para sair, ouviu Samuel Levine chamá-lo:

– Bernard, vou te contar uma história. Quando Sir Clifford Abbott estava morrendo, quem cuidava dele era Sir William Osler. Um dia, Osler ia saindo do quarto e Sir Clifford perguntou: “o que devo fazer com as úlceras de decúbito?” Osler não lembrava de ter visto úlceras no seu paciente, então perguntou para a enfermeira: “ele tem alguma úlcera?” Ela respondeu que não. Então Sir William Osler, que já estava à porta, voltou, examinou com cuidado o Sir Clifford Abbott e garantiu-lhe que não havia qualquer problema com sua pele.

Ao ouvir esse relato, o Dr. Bernard Lown entendeu. Voltou e examinou o Dr. Samuel Levine ainda mais minuciosamente que de costume. Dali em diante, até a morte do Dr. Levine, o Dr. Lown fez-lhe um exame físico completo, todos os dias.

Ninguém aceita o abandono. A ansiedade de ficar sozinho pode piorar os sintomas e potencializar a agonia dos pacientes terminais. Por isso, um dos cuidados fundamentais que devem ser dados aos moribundos é garantir-lhes que tenham sempre um médico à sua disposição.

Ao sair da aula de Semiologia, alguns alunos, que ficaram comovidos com o sofrimento do nosso paciente da manhã, entenderam isso. Combinaram entre si de, cada dia, um deles ir visitar e fazer companhia àquele senhor tão sofrido.

Isso é Medicina de verdade!

 


PARA SABER MAIS:

Lown B. A arte perdida de curar. São Paulo: Peirópolis, 2007. p. 306.

 


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