[Entrevista] Dr. Porto fala de tecnologia, semiologia e raciocínio clínico

Tempo de leitura: 8 minutos

Prof. Dr. Celmo Celeno Porto - semiologia e raciocínio clínico
Prof. Dr. Celmo Celeno Porto

O Prof. Dr. Celmo Celeno Porto, conhecidíssimo autor do clássico livro “Semiologia Médica” e atualmente Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, gentilmente concordou em nos ceder uma entrevista por email.

Nessa entrevista, exclusiva para o blog Raciocínio Clínico, o Prof. Porto falou o que pensa sobre educação médica, a incorporação das novas tecnologias na avaliação dos pacientes, a semiologia e o raciocínio clínico diagnóstico.

(O Dr. Porto também nos mandou uma AUTOBIOGRAFIA, que você pode conferir clicando AQUI!)

Acompanhe abaixo essa entrevista imperdível com um dos maiores médicos brasileiros!


RACIOCÍNIO CLÍNICO: Dr. Celmo: o senhor é um dos nomes mais conhecidos no Brasil quando o assunto é Semiologia, que, como todos sabemos, é uma das competências essenciais para que o médico consiga fazer um bom diagnóstico. No entanto, a tecnologia médica avança a olhos vistos, e muitos profissionais de saúde hoje dependem em grande parte da tecnologia para ajudá-los a fazer diagnósticos. Como equilibrar essa equação entre tecnologia, semiologia e raciocínio clínico? Como o médico pode usar o melhor da tecnologia atual, mas sem perder de vista a importância da semiologia clássica?

PROF. CELMO: Os recursos tecnológicos vão continuar avançando. E isso é indispensável para tornar a medicina cada vez melhor. Já iniciamos a fase em que muitos equipamentos serão reduzidos, não só de tamanho, mas, também de preço, o que vai possibilitar sua incorporação no exame físico, tal como já acontece com o termômetro, o esfigmomanômetro, o oxímetro, o glicosimetro, o eletrocardiógrafo… A nanotecnologia e a miniaturização dos chipes permitem transformar em simples aplicativos de smartphones um grande número de equipamentos. Poderemos associar à inspeção, à palpação e à ausculta todos estes equipamentos que estarão na maleta do médico.

O que é insubstituível é a anamnese: porque esta parte do exame clínico é que permite ao médico aventar hipótese(s) diagnóstica(s) que vão indicar os exames complementares mais adequados para identificar as doenças com alto grau de segurança. É durante a anamnese, também, que os princípios éticos podem se tornar ações concretas. Tudo que existe na medicina pode ser usado para o bem e para o mal. É uma questão de escolha. Mais ainda, durante a anamnese é que aparecem (ou não) as qualidades humanas. Ética, integridade, respeito ao paciente, compaixão, constituem a essência da relação médico-paciente, que é núcleo luminosos do encontro clínico.

Não se pode ignorar que o método clínico está sofrendo modificações desde sua sistematização inicial, realizada por Hipócrates, há mais de 2000 anos, sem perder suas características fundamentais. A descoberta dos raios X, no final do século XX, influenciou profundamente a prática médica. Contudo, o essencial do método clínico permanece. Aliás, isto só é possível em virtude de sua principal característica: a flexibilidade. Sem qualquer prejuízo na avaliação clínica, muitas manobras e sinais já desapareceram do exame físico, pela inclusão na prática diária dos raios X e de outros exames de imagem. Tudo leva a crer que o exame clínico, em particular o exame físico, vai sofrer importantes transformações com a miniaturização de muitos equipamentos geradores de imagem.

O grande desafio continua sendo conciliar o método clínico com os exames complementares. Confrontá-los é um pseudoconflito.

 

RACIOCÍNIO CLÍNICO:  Outro fato bem conhecido é o número significativo de escolas médicas abertas no Brasil nos últimos anos, principalmente escolas privadas, muitas delas com deficiências de estrutura e pessoal. Na sua opinião, os estudantes de Medicina brasileiros de hoje estão aprendendo Semiologia adequadamente? E o que os estudantes podem fazer para complementar ou melhorar sua formação?

PROF. CELMO: A qualidade do ensino da Medicina não é diferente entre escolas privadas e escolas públicas. Há boas e más escolas nos dois tipos. Deficiência de estrutura, instalações precárias e fragilidade pedagógica do corpo docente pude ver em ambas, nas viagens que tenho feito por todo o país, desde a época em que participei da Comissão de Avaliação das Escolas Médicas, que o MEC criou, mas foi um fracasso por conta da intromissão de políticos quando os relatórios da Comissão eram entregues ao Ministro da Educação.

A valorização da semiologia está diretamente relacionada ao padrão do curso. Sem dúvida, há deficiências em muitas escolas, mas os estudantes estão reagindo. Para citar apenas um exemplo: o Laboratório de Habilidades Clínicas (LHC) ainda não está presente em todas as faculdades e ele é uma excelente estratégia para dar aos alunos as bases do método clínico. Contudo, é necessário saber que os LHC não substituem o exame de pacientes em Unidades Básicas de Saúde, Ambulatório de Especialidades, Serviços de Urgências e Hospitais de diferentes naturezas.

A meu ver, cabe aos estudantes o principal papel na melhora dos cursos de medicina. Ninguém melhor do que eles para reivindicar uma boa qualidade de ensino. É o futuro deles que está em jogo.

As Ligas Acadêmicas, que hoje atingem milhares no Brasil, podem ser os locais onde a reação dos estudantes às deficiências do ensino adquire expressão mais transformadora. Aliás, a meu ver as Ligas Acadêmicas são a grande novidade do ensino médico. A prova disso é o grande número de Ligas de Semiologia que surgiram nos últimos anos.

 

RACIOCÍNIO CLÍNICO:  Além de uma boa semiologia, outros pilares do diagnóstico correto em Medicina são o conhecimento das doenças e o raciocínio clínico apropriado. O senhor acha que o raciocínio clínico pode ser ensinado? Se sim, a partir de que período do curso de Medicina? O senhor poderia resumir como o estudante deveria aprender raciocínio clínico?

PROF. CELMO: Sim, pode ser ensinado, mas há poucas pesquisas sobre este tema. Participei de uma pesquisa na Faculdade de Medicina da UFG, liderada pelo Prof. Alexandre Roberti, sobre o desenvolvimento do raciocínio clínico do 1º ao 5º ano, publicada no São Paulo Medical Journal em dezembro de 2015 (Development of clinical reasoning in undergraduate medical program at a Brazilian University), na qual observamos que há diferença entre os alunos dos primeiros dois anos e a partir do 4º ano. Precisamos pesquisar mais para desenvolvermos propostas pedagógicas adequadas.

Estamos agindo equivocadamente quando propomos casos clínicos complexos na fase inicial do aprendizado do raciocínio clínico. Somente no final do curso os estudantes passam a raciocinar a partir de “padrões”, os quais são aprendidos progressivamente à medida que adquirem conhecimentos sobre as doenças.

O ensino-aprendizagem do raciocínio clínico deve ser iniciado tão logo o estudante inicia o curso. Mas é necessário usar estratégias didáticas adequadas para os diferentes períodos do curso.

 

RACIOCÍNIO CLÍNICO: Na sua opinião, qual é a importância do erro diagnóstico para os pacientes e a sociedade em geral? O senhor acha que a comunidade médica brasileira está ciente da importância desse problema?

PROF. CELMO: Erros diagnósticos podem resultar em tragédia para os pacientes, além de serem uma fonte de questões cientificas, éticas e legais. Sempre se soube que a análise de erros constitui um recurso de grande valor no aprendizado de qualquer matéria. Em épocas passadas, as sessões anatomoclínicas foram modelos perfeitos para se identificar erros e aprender com eles. Tornaram-se raras, mas é preciso criar outros modelos para se atingir os mesmos objetivos. As “autópsias virtuais”, já utilizadas nos mais avançados institutos de medicina legal, são uma nova possibilidade.

As causas de erro são múltiplas, mas, como está bem comprovado, a principal continua sendo um exame clínico mal feito! Começando “errado”, nada vai dar certo.

 

RACIOCÍNIO CLÍNICO:  Com base em toda a sua experiência, que conselhos o senhor pode dar aos estudantes de Medicina e jovens médicos, para que se tornem excelentes na ciência e na arte do diagnóstico?

PROF. CELMO: Tenho absoluta convicção de que medicina de excelência só é possível se o exame clínico for excelente. A conclusão é óbvia: o principal objetivo do estudante é aprender a fazer um exame clínico bem feito. Começando bem, tudo vai dar certo!

 


Confira também a AUTOBIOGRAFIA do Dr. Celmo Celeno Porto, clicando AQUI!

 

Agradecemos imensamente ao Prof. Dr. Celmo Celeno Porto pela gentileza em responder às nossas perguntas!

No mês que vem, traremos outro Grande Nome do Raciocínio Clínico. Fique ligado!


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