Identificar uma doença em sua fase inicial pode ser decisivo para o prognóstico de um paciente. É até lógico pensar que seria um problema a menos se pudermos detectar todas as doenças antes mesmo dos indivíduos apresentarem sintomas. 

É nesse pensamento que se destaca o screening (ou rastreamento, em tradução literal).

Screening = realização de exames em pessoas assintomáticas para identificação de possíveis doenças não manifestadas previamente.

Usar de exames em indivíduos assintomáticos para identificação de uma doença na sua fase inicial ou sem sintomatologia parece uma estratégia revolucionária e impecável para diminuição de morbimortalidade, não é mesmo?

Esse é um pressuposto que vem ganhando forças há décadas e compõe a ideia de grande parte dos indivíduos saudáveis que procuram serviços de saúde e realizam exames de screening, às vezes desnecessários.

O que não se fala muito sobre os rastreamentos é que, em muitos casos, podem trazer mais problemas para os pacientes do que, de fato, o alívio do seu sofrimento. O rastreamento não tem isenção de riscos, e significa interferir na vida de pessoas que, até a prova do contrário, são saudáveis.

(Veja, por exemplo, a história do Dr. William Casarella e o nosso artigo sobre os 10 exames mais inúteis em Medicina.)

Apesar de sua disseminação, a efetividade dos screenings ainda é pouco conhecida.

Desse modo, surgem muitos questionamentos e controvérsias associadas a tais testes. Afirma-se que o rastreamento somente é recomendado quando os benefícios superam os danos potenciais. No caso dos indivíduos serem submetidos a outros exames, muitas vezes invasivos, também deve-se considerar os efeitos colaterais e se a morte é evitável ou há benefício paliativo. 

Nesse sentido, a expectativa de vida é um fator primordial na tomada de decisão individualizada quando se pensa na realização do rastreamento. Não se avalia apenas a média de vida pré-estabelecida para determinadas idades, mas também a presença de algum tipo de comprometimento funcional ou comorbidade, deixando mais evidente se o screening trará benefícios nesses casos ou serão exames realizados sem necessidade.

Organizações de peso, como a Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF), têm apontado que há efetividade na realização dos seguintes rastreamentos: Papanicolau (colo de útero), mamografia (mama) e pesquisa de sangue oculto nas fezes/retossigmoidoscopia (colorretal). 

Em relação aos screenings que não devem ser incluídos no rastreamento, estão a ultrassonografia de abdome para câncer de ovário, RX de tórax para câncer de pulmão, dosagem sorológica de PSA (antígeno prostático específico) e ultrassonografia transretal para câncer de próstata.

screening é assunto do futuro!

Em 2013, a atriz mundialmente famosa Angelina Jolie chamou os holofotes para si quando anunciou ter realizado mastectomia dupla para reduzir suas chances de desenvolver câncer de mama. Com histórico familiar de câncer, ela realizou rastreio genético e descobriu que o gene BRCA1 a tornava predisposta a desenvolver cânceres de mama e de ovário. O futuro do screening talvez seja esse: olhar para o DNA.

Muito já se sabe sobre o quão promissor é identificar futuras doenças com base em testes de DNA, e a promessa é grande; desde doença de Alzheimer até múltiplos tipos de cânceres, quase tudo poderia ser rastreado. Avançadas técnicas de biologia molecular podem identificar indivíduos com maior susceptibilidade de desenvolver determinada doença, mas continuam sem poder prever o futuro. 

Ao senso comum, parece inaceitável que essa aplicabilidade seja contraintuitiva, assim como vários screenings que são utilizados em larga escala mundo afora. Não se pode perder de vista a noção de que a prevalência específica de quase todas as doenças é baixa, e o número de indivíduos que potencialmente se beneficiaria com screenings genéticos é muito pequeno. 

Encontrar moléstias tratáveis antes de darem as caras ou antes mesmo delas existirem talvez seja o sonho de todos nós, estudantes e profissionais da saúde. Enquanto esse retrato fica para os filmes de ficção científica, a importância de uma boa anamnese, exames físicos bem feitos e um raciocínio clínico afiado está cada vez mais evidente e incontestável.

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coautora:

Giovanna Gonçalves Emerenciano é natural de Jandaia do Sul-PR e é estudante do 3º ano de Medicina na Universidade Estadual de Londrina. Muito obrigado pela colaboração!