Sabe aquela história do paciente jogar seus sintomas no Google para diagnóstico? Pois é.

Na semana passada, tive a oportunidade de conhecer esta pérola musical gravada pelo Dr. Henrik Widegren, que trabalha como otorrinolaringologista em Lund, na Suécia:

NEVER GOOGLE YOUR SYMPTOMS

A música “Never Google Your Symptoms” conta a história de um pai que está no leito de morte e dá um último conselho ao filho: nunca procurar seus sintomas no Google.

A letra é mais ou menos assim (numa tradução livre):

 

Nunca dê um Google nos seus sintomas

Este é meu único pedido

Você acha cem diagnósticos e os piores prognósticos

Cada dorzinha vira uma doença séria

Se você googlar “tosse” e “diagnóstico”

Você vai ter tuberculose

E se você googlar “febre” e “vermelhidão”

Você tem Ebola e está morrendo

E se você googlar “nariz escorrendo”

É líquor. Seu cérebro está vazando!

E se você googlar “coceira” e “prognóstico”

Choque anafilático ou psicose

 

Essa canção divertida acabou tendo bastante repercussão pelos grupos de WhatsApp Brasil afora.

E, com isso, levantou uma questão: afinal de contas, usar o Google para diagnóstico é uma boa idéia ou não?

A gente foi pesquisar! E a resposta é: depende.

Depende, por exemplo, se a busca é feita por um um profissional de saúde ou uma pessoa leiga.

Depende de a busca ter sido feita em português ou em outro idioma…

Continue lendo para entender!

COMO FUNCIONA O GOOGLE?

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O Google é um mecanismo de busca que identifica quais as páginas da internet que devem corresponder melhor à pesquisa que você está efetuando, com base em diversos algoritmos e rankings. Alguns desses rankings levam em conta o número de acessos à página. E é aí que começam a surgir os problemas: nem sempre as páginas mais acessadas são as que têm as informações mais confiáveis! 

Às vezes, aquelas páginas são muito acessadas e estão no topo da lista porque são espalhafatosas, sensacionalistas e usam palavras ou frases bombásticas que chamam a atenção e fazem você clicar nelas por pura curiosidade. 

E, às vezes, ninguém entende por que aquelas páginas têm tantos acessos. (É o que eu sinto ao ver o número de acessos de alguns vídeos que meus filhos gostam de ver no YouTube.)

Pode acontecer que as páginas mais certinhas, com o conteúdo mais adequado e correto do ponto de vista técnico, sejam mais “caretas”, não chamem tanto a atenção e por isso não tenham tantos cliques assim. Com menos acessos, essas páginas não conseguem aparecer na primeira página dos resultados do Google.

E dizem que não há melhor lugar para se esconder do que na segunda página do Google…

GOOGLE PARA DIAGNÓSTICO - PARA MÉDICOS

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Vamos falar primeiro do uso do Google por médicos.

O Google é, sim, uma ferramenta que pode ajudar no diagnóstico diferencial – por exemplo, ajudando o médico a lembrar de uma doença incomum ou desconhecida.

(Já contamos histórias assim em posts anteriores sobre anemia microangiopática e mialgia em idoso.)

E tem uma coisa importante: é grátis!

(Entretanto, se você tem um dinheirinho para gastar, fica a dica: existem outras ferramentas que foram desenvolvidas especificamente para essa finalidade, e por isso costumam retornar resultados melhores!)

Em 2006, um estudo publicado no British Medical Journal avaliou a acurácia do Google como ferramenta de auxílio diagnóstico. Os pesquisadores pegaram todos os casos clínicos publicados no New England Journal of Medicine no ano anterior (26 casos), selecionaram os três a cinco achados clínicos que julgaram mais relevantes e realizaram buscas no Google com esses achados. O Google retornou o diagnóstico correto entre seus principais resultados em 15 dos 26 casos: 58% de acerto.

COMO USAR BEM O GOOGLE PARA DIAGNÓSTICO? TRês dicas DE OURO

O Google funciona sim – se você usar do jeito certo!

Por isso precisamos lembrar você, doutor, de três dicas importantes para você conseguir usar bem o Google para diagnóstico:

1) Uma etapa importante (feita no estudo que citamos) é identificar quais dados da história do paciente são os mais importantes para serem os termos de busca no Google. Médicos mais experientes conseguem fazer melhor essa seleção dos achados mais relevantes – e com isso conseguem resultados de busca melhores. Portanto, dedique tempo e cuidado para selecionar muito bem seus termos de busca!

2) Sinais e sintomas menos comuns costumam ser os melhores para colocar numa busca, pois costumam ter diagnóstico diferencial mais restrito (menor número de causas possíveis) e assim conduzir mais diretamente à identificação do diagnóstico correto (ou dos mais prováveis). Queixas comuns como anemia ou perda de peso acabam gerando uma lista de possibilidades muito grande. Mas experimente buscar macroglossia ou trepopneia! Por isso, sempre inclua os sinais e sintomas mais incomuns entre os termos de busca.

3) A maior parte da literatura médica de qualidade está publicada em língua inglesa! Buscas feitas em português tendem a encontrar mais resultados irrelevantes ou de baixa qualidade (têm menor especificidade). Portanto, sempre que possível, faça as buscas em inglês.

GOOGLE PARA DIAGnÓSTICO - pARA LEIGOS

Vamos falar agora sobre como as pessoas leigas (sem formação profissional na área da saúde) podem usar bem o Google para diagnóstico de algum sintoma ou problema de saúde.

Sabemos que se você fizer uma busca por algum termo muito comum na internet, o número de respostas à sua busca pode facilmente chegar à casa dos milhões de páginas.

Como distinguir, entre esses milhões de resultados, qual ou quais são as melhores fontes de informação para a dúvida que você tem?

É preciso ter um mínimo de informação e bom senso para conseguir separar o joio do trigo.

Infelizmente, nem todo mundo tem isso – embora todo mundo tenha acesso ao Google!

É por isso que algumas pessoas acabam sendo levadas a conclusões erradas ao dar um Google nos seus sintomas e clicar no resultado mais chamativo.

É batata! Não importa qual o sintoma que você está buscando: se você continuar clicando, você vai inevitavelmente chegar a alguma doença terrível ou fatal.

Os seis graus de separação

Lembra aquela história dos “seis graus de separação”?

É a idéia de que é possível encontrar uma relação entre quaisquer duas pessoas no planeta, traçando um caminho que passa por seis conhecidos entre eles.

Vale para o Google também!

São os “seis graus do câncer”: procure por qualquer sintoma no Google (qualquer um!), e é garantido: em no máximo seis cliques, você vai estar lendo sobre câncer.

O DOUTOR GOOGLE

É comum pessoas leigas procurarem seus sintomas no Google?

Muito!

Estima-se que uma em cada 20 buscas no Google é sobre sintomas ou doenças. Oitenta por cento das pessoas fazem buscas no Google por informações relacionadas à sua saúde.

Para tentar melhorar um pouco essa questão dos diagnósticos feitos pelo “Dr. Google”, o próprio Google criou um sistema de buscas relacionadas à saúde, que tenta oferecer informações melhores e mais confiáveis para pessoas leigas.

Se não conhece esse sistema, busque qualquer sintoma no Google.

Você vai ver que, além dos resultados normais de busca, o Google vai mostrar um quadro com informações sobre aquele sintoma no lado direito da tela, geralmente produzido por alguma fonte confiável. O quadro explica o que é aquele sintoma, quais as suas principais causas e, inclusive, em que situações você deve se preocupar e procurar um médico (os sinais de alarme).

Veja no exemplo acima uma busca por “pneumonia” no Google: o quadro a que nos referimos é esse à direita da tela, com informações produzidas pelo Hospital Albert Einstein.

Outra dica prática para pessoas leigas usarem bem o Google para diagnóstico é a seguinte: não clique sempre no primeiro resultado. Escolha clicar em páginas de instituições ou pessoas sérias e confiáveis.

No Brasil, bons exemplos de sites sobre saúde voltados para a população leiga são os do Ministério da Saúde, de sociedades médicas como a Sociedade Brasileira de Cardiologia e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade, do Hospital Albert Einstein e do Dr. Drauzio Varella (para citar apenas alguns).

Fuja de sites que pareçam estar vendendo alguma coisa ou prometendo curas milagrosas!

Mas lembre-se (e nunca é demais reforçar): por melhores que sejam, as informações que você encontra na internet não devem substituir a avaliação e o aconselhamento por um médico de confiança.

Na dúvida, sempre consulte seu médico!

CONCLUSÕES

O Google pode ser um recurso interessante para direcionar pacientes na busca pelo melhor cuidado para sua saúde e para ajudar médicos a formular um diagnóstico diferencial.

No entanto, cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém!

Mecanismos de busca e semelhantes são recursos auxiliares. E, assim como qualquer outra ferramenta, o Google tem (sim, acredite!) suas limitações.

Portanto, se você é médico: use o Google com sabedoria!

E se você é paciente: use o Google com moderação!