Confesso: eu imitei muita gente.
Imitei médicos, professores, residentes. Imitei coisas boas e, sinto dizer, ruins também.
Mas chegou o dia que eu precisava ser um médico autêntico, uma pessoa com identidade própria.
Mas sabe por que eu imitava?
Ora, porque eu não sabia ainda como agir. Eu estava aprendendo a me comportar.
Neste post, eu vou falar justamente sobre como ser uma médica ou um médico autêntico.
Quais os comportamentos esperados, os valores e virtudes que você deve cultivar para ter uma identidade profissional bem formada?
Eu falo sobre tudo isso abaixo.
Ao final, você vai aprender:
- Quais são os elementos da identidade profissional;
- Modelos para ter em mente;
- Como integrar a técnica e a humanidade;
- Três dicas para desenvolver melhor sua identidade profissional de médico.
Você pode se estar se perguntando: “por que eu preciso saber disso tudo?”
A resposta simples é: porque você é o maior responsável pela sua formação!
Então, acompanhe até o final!
A IMPORTÂNCIA DOS MODELOS
Sempre carreguei comigo modelos: pessoas, médicos, que me marcaram pela sua excelência. Muitas vezes, até hoje, quando estou em dúvida, ainda me pergunto o que um deles faria, nesta ou naquela situação.
Mas a necessidade de “ser eu mesmo” é grande em todo mundo. Em mim. Em você também. E, na minha busca, era isso que eu queria encontrar: uma identidade profissional que estivesse de acordo com a Medicina, mas também em harmonia com meu jeito de ser como indivíduo.
E é sobre isso que eu quero falar para você!
Isso vai ajudar você, assim como me ajudou. Mas espero que você tenha acesso a isso num momento mais precoce, para você crescer melhor, mais rápido e com mais consciência.
VOCÊ SABE O QUE É IDENTIDADE PROFISSIONAL?
Identidade profissional é o modo próprio de agir e pensar, que é comum entre pessoas que exercem o mesmo ofício, e que é específico dessa profissão.
Algumas profissões têm isso de maneira mais exuberante, como os militares, os médicos, os professores, entre outros.
Mas a identidade profissional também é mais que só conhecimento ou atitude.
É SER!
É uma unidade de pensar, agir, sentir e querer, própria de uma profissão.
E, se você é estudante de Medicina, essa é sua meta final: SER MÉDICO!
O QUE COMPÕE A IDENTIDADE PROFISSIONAL?
Durante a faculdade, ganhamos conhecimentos e adquirimos comportamentos.
Conforme vemos pacientes, percebemos que existe uma maneira profissional de agir que ultrapassa apenas os bons modos ou o bom senso (embora estes também sejam necessários). Há competências específicas que devem ser desenvolvidas.
A esse conjunto de competências, podemos chamar de profissionalismo.
COMPETÊNCIAS médicas essenciais:
O que o médico é capaz de fazer:
- Habilidades clínicas
- Procedimentos práticos
- Investigações em pacientes
- Manejo de pacientes
- Promoção saúde e prevenção de doenças
- Comunicação
- Informática médica
Como realiza sua prática:
- Ciências básicas, sociais e clínicas
- Atitudes, compreensão ética e responsabilidades legais
- Habilidades de tomada de decisão e raciocínio clínico
O médico como profissional:
- Missão do médico dentro do serviço de saúde
- Desenvolvimento pessoal
Fonte: The “Scottish doctor” model (Simpson et al, 2002)
(Você também pode baixar uma lista de competências no nosso post sobre o Guia do Internato Médico.)
Mas profissionalismo não é só isso! Tem mais componentes importantes – como, por exemplo, as virtudes e o compromisso com a sociedade.
VIRTUDES
Por mais que adquira competências, elas ainda não dão a autenticidade ou a identidade que você procura.
Elas são ainda externas ao seu caráter, não afetam a personalidade de maneira mais profunda.
Não integram no ser o coração, a vontade.
Por isso as virtudes.
Uma pessoa não é pontual, trabalhadora, corajosa de maneira espontânea ou natural. Isso é adquirido, com esforço e treino. Isso é virtude.
E forma o caráter porque as virtudes se orientam para coisas boas como a justiça, a bondade, o altruísmo.
Na medicina é preciso muita virtude, muita força moral para manter o ritmo de trabalho e estudo, honestidade, autocontrole, humildade. E fazer isso sempre!
O MÉDICO E A SOCIEDADE
“Profissão” vem de professar, assumir algo publicamente.
Fazemos um juramento, professamos diante de todos o nosso comprometimento com a vida. E a sociedade espera isso da gente.
Essa responsabilidade também vem acompanhada da sensação de pertencermos a um grupo, uma comunidade.
Começa quando participamos da Cerimônia do Jaleco e vai aumentando até que somos parte de uma classe profissional.
Não esqueça, você é importante para a sociedade. É querido e estimado, pois as pessoas reconhecem sua profissão e têm expectativas.
Nós temos que estar à altura dessas expectativas.
Essa é a nossa MISSÃO!
HUMANISMO E HUMANIDADES
O que você percebeu até agora de importante?
Percebe que há uma unidade? Uma pessoa com personalidade, caráter, profissão e missão?
Isso só é possível graças ao âmbito humanístico. É essa abertura para o mundo, para o próximo.
É como nossa visão de mundo, da realidade, com seus valores e ideais.
É também um modo de ação que visa o bem dos outros, da sociedade e da humanidade.
É a autodeterminação da pessoa livre que também quer crescer, melhorar e ser feliz.
Uma profissão bem vivida conduz a tudo isso!
E O RACIOCÍNIO CLÍNICO?
Como você já deve ter notado, o raciocínio clínico também é uma parte fundamental da prática médica.
Um raciocínio adequado também contribui para a autoestima do médico, que sente-se confiante e capacitado para trabalhar bem, pensar corretamente e chegar a conclusões acertadas em benefício do paciente.
Num post anterior, comentei que o raciocínio clínico é a pedra angular da Medicina. Isso porque, no encontro clínico com o paciente, unimos todas as competências, virtudes, modos de agir em torno do raciocínio. Pois não haveria razão para tudo isso se não fosse para chegar a um diagnóstico ou tratamento.
ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO DA IDENTIDADE PROFISSIONAL
Antes de chegarmos às dicas, quero compartilhar algumas impressões.
Há alguns anos, tendo pensado já bastante sobre a formação humana em geral e a médica em particular, deparei-me com um artigo (uma série de artigos, na verdade).
Veja o que encontrei:
Fonte: Cruess et al, 2016.
Essa imagem (se você a conhece, percebeu que é uma modificação da famosa Pirâmide de Muller) mostra alguns estágios pelo qual devemos passar até chegarmos ao SER médico.
Resumidamente, é sair de um estágio de conhecimento abstrato para chegar até um modo onde estão bem incorporados os valores, habilidades, competências e virtudes, em uma identidade profissional sólida.
Três dicas para você desenvolver sua identidade profissional na Medicina
1. MODELOS:
Tenha modelos para imitar. Enquanto você ainda aprende, imite BONS modelos. É o modo de falar com o paciente, explicar as coisas, realizar o exame físico. Muitos modos você vai acabar levando consigo, outros mudarão de acordo com seu jeito.
2. VALORES:
Saiba com clareza os valores médicos, aqueles que devem fazer parte da sua busca contínua. São os que levarão você à excelência. Veja alguns exemplos de valores abaixo:
3. Observação e Reflexão:
Tire o máximo proveito das suas experiências. Para isso, só sendo curioso, observando bem e refletindo. Quando você achar que agiu mal, reflita e entenda seus motivos e emoções. Desenvolva pensamento crítico. O mesmo vale para maus exemplos. Se algo faltou ou está mal em você ou em alguém que devia dar exemplo, seja crítico e proativo. Aprenda com o oposto, com a ausência. Cresça diante dos obstáculos.
CONCLUSÕES
Esperamos que este post ajude você a enxergar melhor o “caminho das pedras” para a formação da sua própria identidade profissional como médico ou médica.
PARA SABER MAIS:
Mueller PS. Incorporating professionalism into medical education: the Mayo Clinic experience. Keio J Med, 2009.
Pellegrino ED. Professionalism, profession and the virtues of the good physician. Mt Sinai J Med, 2002.
Cruess RL, Cruess SR, Steinert Y. Amending Miller’s Pyramid to Include Professional Identity Formation. Acad Med, 2016.
APROVEITE E VEJA O VÍDEO ABAIXO SOBRE IDENTIDADE PROFISSIONAL!
Autor: Fabrizio Almeida Prado
Você pode referenciar o artigo acima usando o Digital Object Identifier (Identificador de Objeto Digital) – DOI.
DOI: 10.29327/823500-53