Todos os editores e colaboradores aqui do Raciocínio Clínico são fãs de carteirinha de Sir William Osler, tido por muitos como o pai da Medicina moderna.

A vontade de conversarmos com ele era tanta que, apesar de ele ter morrido em 1919, a gente deu um jeito de conversar com ele além-túmulo: usando a imaginação (e um pouco do que sabemos da história dele)!

Confira abaixo, em primeira mão, esta entrevista com Sir William Osler:

entrevista com william osler - raciocínio clínico

ENTREVISTA COM SIR WILLIAM OSLER

RC – Em primeiro lugar, gostaríamos muito de agradecer por ter aceito nosso convite para essa entrevista exclusiva. Conhecendo e admirando sua vida, com certeza é um dever nosso divulgá-la, já que, como o senhor, também queremos melhorar a prática e a educação médicas. Dr. Osler, como o senhor enxerga a Medicina hoje, comparada com aquela praticada no século XIX e começo do século XX?

WO – Em primeiro lugar, obrigado por pronunciar meu nome corretamente, muitos falam com o Ó aberto (como em door), mas é com Ô, fechado, como em host.

Mudou tanta coisa, como o tempo passa rápido!

Hoje temos tantas doenças bem descritas, e veja quantos exames e conhecimento temos disponíveis. Naquela época ainda era preciso observar, descobrir e descrever tudo isso. Sempre fui muito observador e detalhista no meu trabalho como médico. Fiz várias descobertas e escrevi muito. 

Por isso, empreendi a grande tarefa de compilar tudo o que se sabia de Medicina na época, no meu tratado Principles and Practice of Medicine. O livro foi um grande sucesso, foi reeditado muitas vezes (inclusive em português) e, para minha alegria, foi o livro-texto mais usado em escolas médicas por mais de 40 anos. Mas deu muito trabalho… Imagina só, uma única pessoa, resumir sozinho todo o conhecimento médico da época em um livro!

Hoje, com o volume de conhecimento que temos, isso seria algo completamente impossível.

RC – Parece que andaram reeditando seu livro agora em 2014, mais de cem anos depois da primeira edição.

WO – É mesmo? Não sabia! Mas acho que meu livro já está um tanto quanto ultrapassado.

Hoje temos muitos livros, artigos, sites (como o de vocês) e a maior maravilha que é o acesso rápido pela internet, a tudo, inclusive a grandes bases como o UpToDate.

Confesso que eu até fiquei interessado em usar o Instagram esses dias, mas estou aposentado, vou continuar só na Netflix vendo o seriado Diagnosis

Mas o mais importante é que temos bons tratamentos disponíveis. Quando comecei, tive aulas péssimas sobre uso de ventosas, laxativos, banhos gelados (risos) e flebotomia, que eram as sangrias, feitas para quase tudo. Tive que combater essas práticas arcaicas e danosas. Havia poucas coisas realmente úteis: morfina, quinina e alguns outros poucos medicamentos. 

Quando surgia algum novo tratamento que realmente funcionava, parecia um milagre! Eu mesmo fiquei maravilhado ao tratar hipotireoidismo com extrato de tireoide (fui um dos primeiros médicos americanos a usar esse tratamento) e ver a melhora impressionante dos pacientes!

Hoje é até meio absurdo falar isso, mas ainda não tínhamos medicina baseada em evidências, nem sequer evidências… Era tudo na base da experiência pessoal e da tentativa e erro, sem que a ciência oferecesse uma base segura.

Outra coisa que me chama a atenção hoje é o grande número de instituições médicas, sociedades, e também de escolas médicas. Na minha época havia pouquíssimas escolas de Medicina, e geralmente eram só para homens. 

RC – É mesmo! Pode falar mais sobre essa história da Medicina ser um clube do bolinha? Inclusive, parece que o senhor ajudou a mudar essa situação? 

WO – Sim, na época era raro ter mulheres na Medicina! Até existiam escolas médicas que aceitavam mulheres, mas era em pouquíssimos lugares, e geralmente em classes exclusivas para mulheres. As turmas não se misturavam: tinha turmas de homens e turmas de mulheres, separadamente. 

Quando me chamaram para ser o médico-chefe do recém-fundado hospital Johns Hopkins e ajudar a abrir a escola de Medicina lá, a ideia inicial era que fosse só para homens. 

Mas havia um grupo de mulheres com muito interesse em apoiar a entrada de mais mulheres na profissão médica. Elas entraram em contato comigo e com a direção da escola, e achamos que seria uma ótima ideia ter classes “mistas”, com alunos de ambos os sexos.

Hoje, as mulheres já são maioria na Medicina, e a profissão médica é cada vez mais uma profissão feminina!

RC – Há tanto para perguntar que nem sabemos por onde começar. Mas vamos pelo começo! Conte aos nossos leitores um pouco do início da sua vida e carreira.

WO – Nasci numa pequena vila rural no Canadá, quando o país ainda era colônia da Inglaterra. Meus pais eram imigrantes ingleses. Meu pai, o Rev. Featherstone Lake Osler, foi para o Canadá para trabalhar como missionário, e andava muitos quilômetros no lombo do cavalo para cuidar dos habitantes da região. 

Eu mesmo pensei inicialmente em seguir carreira religiosa, mas na faculdade acabei mudando de ideia porque minha paixão, uma verdadeira obsessão, na juventude, eram as ciências naturais. Ah, como eu amava fazer observações no microscópio… Inclusive, uma das minhas primeiras descobertas foi um parasita de cachorros, que depois foi batizado Oslerus osleri.

Esse interesse me conduziu ao estudo da Medicina.

Inicialmente fui para uma faculdade em Toronto, mas lá o ensino não era muito bom. Com muito esforço, meu pai me ajudou a ir para a Universidade de McGill, em Montreal, onde realmente pude estudar bem e me formei médico em 1872.

Sou muito grato por ter tido três grandes mentores que me ajudaram  no caminho das ciências naturais e da Medicina: o Rev. William Arthur Johnson, que me apresentou o microscópio; o professor James Bovell, que me ajudou a entrar na Universidade de McGill, e o professor Robert Palmer Howard, que foi meu mentor em McGill. O meu tratado de Medicina é dedicado a eles três!

Faço aqui um breve parênteses. As faculdades têm tido atividades de mentoria, e hoje até mentorias online. Tudo isso é ótimo! É importante os alunos terem modelos de trabalho e caráter. Mas os mentores devem ser pessoas bem preparadas, conhecer a Medicina e, mais importante, estarem de fato buscando o progresso dos seus mentorandos.

Eu mesmo, mais tarde, sempre tive o hábito de receber em casa os estudantes nos finais de semana, para contar histórias, dar risadas mas, ao mesmo tempo, enchê-los de conselhos.

"Ele ensinou estudantes de Medicina nas enfermarias."
Epitáfio de Sir William Osler

RC – Agora a gente precisa esclarecer a verdade sobre um boato que chegou até a gente. É verdade que, quando você conseguiu seu primeiro emprego como médico de um grande hospital universitário, você tinha visto mais pacientes mortos do que vivos?

WO – Não é boato! Eu mesmo dizia isso (risos). Logo que me formei, fui para a Europa continuar meus estudos, e passei um bom tempo em Viena aprendendo Patologia com o grande professor Rudolf Virchow. Meus colegas em McGill então me chamaram para ir ensinar lá, e eu comecei a ensinar Patologia. Fui o primeiro patologista do Montreal General Hospital. Fiz centenas de autópsias nessa época e publiquei muitos artigos com meus achados.

Mas o salário de professor de Patologia não era lá essas coisas…

Então resolvi abrir um consultório em Montreal. Mas como ninguém me conhecia, o consultório vivia às moscas. 

Meu próximo passo foi arrumar outro emprego, por isso fui trabalhar como médico numa enfermaria de varíola. Já existia vacina na época, mas mesmo assim ainda havia muitos casos. A região de Montreal, onde eu morava, estava passando por um surto da doença, então vi inúmeros casos de varíola. Infelizmente, não pude fazer muita coisa por eles, já que não há tratamento específico. 

Vou te dizer uma coisa: ainda bem que essa doença desapareceu! Vi casos gravíssimos de varíola; muito sofrimento, dor, medo, tristeza. Uma das poucas coisas que eu podia fazer era ficar ao lado dos pacientes e dar algum alívio às suas dores. Eu mesmo acabei pegando varíola – felizmente, uma forma leve. 

Acho que foi ali que aprendi a valorizar ainda mais o aspecto humano da Medicina, a relação médico-paciente. Mesmo que você não tenha uma cura para o paciente, você precisa estar presente, precisa mostrar que está ali para ajudá-lo com o que puder.

Bom, o fato é que eu só virei clínico geral em um grande hospital-escola seis anos depois de formado, em 1878. Nessa altura, com certeza, eu já tinha visto muito mais pacientes mortos do que vivos, pois sempre continuei trabalhando muito na Patologia.

RC – Sabemos que o senhor fez inúmeras contribuições importantes para a Medicina, tais como a criação da residência médica, mas, na sua opinião, qual foi sua contribuição mais importante? Aquela da qual o senhor mais se orgulha?

WO – Essa é fácil: eu tirei os estudantes de Medicina de dentro das salas de aula e os levei para a enfermaria. Sempre acreditei que a Medicina tem que ser aprendida na prática, em contato direto com os pacientes, e não em livros ou em anfiteatros. 

Inclusive, quando vivo, já sugeri como eu gostaria que fosse meu epitáfio: “Ele ensinou estudantes de Medicina nas enfermarias.”

Na Johns Hopkins, fiz muito isso: fazia visitas com os alunos dentro do hospital todos os dias, e todos conversavam e examinavam os doentes juntos. Acho que esse foi o trabalho mais importante que eu poderia ter feito, e foi o que transformou a Johns Hopkins na melhor escola médica do mundo na sua época.

Tanto é que a Johns Hopkins serviu de modelo para todas as outras escolas, quando Abraham Flexner nos visitou, conheceu nosso método de ensino e o recomendou como padrão para uma educação médica de qualidade, em 1910.

Também, devo confessar que Flexner era meio que prata da casa: ele havia se formado em Artes e Humanidades na Universidade de Johns Hopkins, e o irmão dele, Simon Flexner, foi nosso residente e aprendeu Patologia conosco.

"Erros de julgamento são naturais durante a prática de uma arte que consiste basicamente em ponderar probabilidades."
Sir William Osler (1849-1919)

RC – Agora, vamos puxar a brasa para o nosso assado: o senhor acha importante estudar o raciocínio clínico, durante a formação do médico?

WO – Sem dúvida nenhuma! Fazer um diagnóstico correto é o primeiro passo no caminho de um tratamento adequado e de um cuidado efetivo do seu paciente. Os estudantes precisam dominar todas as etapas do processo de diagnóstico. Ou seja: não só aprender a arte da observação clínica e estudar as características das doenças, mas também aprender a raciocinar em cima dos seus achados de uma forma que ajude a chegar à resposta correta! 

Também temos que ter a humildade de aprender com nossos erros; nenhum ser humano foi criado para conhecer toda a verdade e nada mais que a verdade. Afinal, erros de julgamento são naturais durante a prática de uma arte que consiste basicamente em ponderar probabilidades.

Por isso, precisamos tomar cuidado com o canto de sereia da experiência: muitas vezes somos enganados pela facilidade com que nossas mentes caem no sulco gerado por uma ou duas experiências.

RC – Finalmente, qual o segredo do seu sucesso, de ter conseguido produzir tanto e fazer tanto pela Medicina?

WO – Meu segredo foi estudar muito, trabalhar duro, e tratar o paciente com dignidade e compaixão. Estudar Medicina exige muito esforço e dedicação, e é um trabalho para a vida toda. Nunca paramos de estudar e aprender. 

Por isso, deixo um conselho aos estudantes de Medicina e jovens médicos: não esqueçam que seus pacientes são o objeto último de todo o seu esforço, e por isso eles não merecem que sejamos apenas medíocres. 

RC – Ótimo! Algum último conselho para médicos e estudantes de Medicina?

WO – Façam o melhor que puderem com o seu dia! Um trabalho bem-feito hoje é a melhor garantia para o sucesso amanhã.

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Grandes nomes do raciocínio clínico 6: Sir William Osler

Você conhece William Osler? Curiosidades sobre o pai da Medicina moderna

PARA SABER MAIS:

Bliss M. William Osler: A Life in Medicine. New York: Oxford University Press, 1999.